UMA EXPERIÊNCIA DE VIDA

Alguém me disse, muito recentemente, que "tão depressa passa um dia, uma semana, um mês ….. 50 anos"!

Passaram menos de 6 meses de forma tão rápida que quase nem dei pela passagem. Confirmo, também deste modo que a nossa vivência terrena é efémera, que passa demasiado rápida.

Nesta passagem há coisas que nos marcam profundamente, sobretudo quando Deus faz surgir, ou coloca no nosso caminho, pessoas e factos que ficarão impressos para sempre na nossa vida, passam a fazer parte dela e nos ajudam a perspectivar o futuro e a ver o mundo de forma mais simples, mais humana, menos egoísta e com uma maior interioridade espiritual.

Quando, por motivos de ordem pessoal, decidi passar o Natal de 2012, de forma diferente e com pessoas diferentes, na Casa Nª Senhora das Dores, em Fátima, jamais havia pensado que tal decisão teria um influência e importância, tão grande, na minha vida, mas hoje sei, sem qualquer dúvida, que tal só aconteceu porque Deus não me tinha abandonado e me estava a orientar o caminho.

Aqui e nesta altura encontrei o "colo" e o "ombro" da Irmã Ana da Conceição onde depositei os meus problemas e onde me "agarrei para não cair", ela deu-me a mão, limpou-me as lágrimas e aconchegou-me no seu regaço, como uma mãe acolhe uma filha, quando esta está a viver um momento difícil na vida. Foi assim que tudo começou!

Neste contexto confidenciei-lhe um desejo escondido, de um dia, quando a minha vida o permitisse, poder fazer voluntariado, com crianças africanas, desconhecendo em absoluto o trabalho, missionário, que a Congregação das Irmãs Reparadoras de Nossa Senhora de Fátima tinham naquele continente. A Irmã Ana da Conceição "abriu-me" a porta,. explicando que esta Congregação Religiosa tinha Missões em África e que me iria orientar no caminho.

Hoje, passados cerca de cinco meses (de 16/05/2013 a 13/6/2013) cá estou eu em Moçambique, Lichinga na " Casa Missionária Imaculado Coração de Maria. Tal "presente Divino" só é possivel porque também existem seres humanos, em representação do Senhor, sensiveis aos problemas do outros. Fui encaminhada para falar com a Irmã Superiora Geral, Ana Paula, a quem revelei uma ponta do meu problema e o desejo até então escondido. Esta religiosa prontamente me escutou e me concedeu a oportunidade de me querer/aceitar, temporariamente, na vida desta Congregação Religiosa, a trabalhar em Moçambique/Lichinga. Foi também ela que me aturou  e ajudou a dissipar o meu medo (que mantenho, em viajar de avião), na longa viajem que separa Fátima de Lichinga. É ela, conjuntamente com as três Irmãs, da Casa Missionária Imaculado Coração de Maria (Lichinga), Adelaide, Maria José e Albertina, que continuam a ouvir, aturar e reparar as minhas tristezas, mágoas, saudades nesta terra tão longínqua, tão pobre, tão desprotegida e maltratada do continente africano.

UMA EXPERIÊNCIA DE VIDA

Quando da partida de Portugal e porque julgava ter feito uma preparação teórica para esta experiência que estou a viver (apenas no decurso das minhas férias laborais), num primeiro contato com a realidade, estremeci perante a vivência, deste povo. Não se trata, apenas, de diferenças de culturas e valores, mas sim de realidades sociais, afectivas, humanas, aspetos que eu jamais havia imaginado existirem num país onde tudo cresce sem ser semeado e onde basta colocar a semente na terra!

 A Casa Missionária e as Irmãs Reparadoras são, na minha perspetiva, o centro de resolução de grande parte de problemas do bairro. São as três Irmãs Missionárias que diligenciam por dar formação e acolhimento e mais de um centena de crianças, são elas que criam e providenciam na "Machamba" e "Machambinha", esta situada no pátio central da habitação, a cultura dos produtos e criação de animais para consumo próprio e outra parte para a creche e Jardim de infância que orientam; são estas que fazem a roupas/fardamento para o jardim de infância; são elas que dão/orientam a formação informática e religiosa aos jovens da paróquia do "Bairro da Cerâmica", cuidam da comida, roupa, gestão das casa, jardim de infância e, para além de tudo isto, ainda tem em "Regime de Acolhimento e Formação Psicopedagógica" sete jovens dos catorze aos dezassete anos, a quem proporcionam, alojamento, comida, educação cívica e religiosa, apoio ao estudo, etc… obrigações que, em situações normais, são da competência familiar.

UMA EXPERIÊNCIA DE VIDA

Perante tudo isto impõe-se uma reflexão: Quem sou e que problemas tenho perante a realidade em que vive o povo de Lichinga? Que trabalho tenho quando comparado com a vida quotidiana da Casa Missionária Imaculado Coração de Maria em Lichinga/Moçambique?

No dia em cá cheguei, 16/5/2013, perante a realidade descrita e o "trabalho de formiguinha" das Irmãs Reparadoras, achei que não estava no sítio certo, não me iria adaptar, que não ia conseguir lidar, viver e conviver com tanto problema e trabalho, mas também aqui intervieram mais uma vez em meu socorro as minhas "heroínas", não só proporcionando-me espaço habitacional, alimentação, conforto espiritual, mas também afetivo e emocional para colmatar as saudades de casa e da filha, familia , "Sinhá" e amigosque ficaram em Portugal.

Desta curta experiência, neste contexto social, Bairro da Cerâmica, em Lichinga, posso dizer que num primeiro impacto foi de "incapacidade, medo e vontade de fuga", porém sete dias passados, sinto que estou mais adaptada e integrada nesta realidade. O medo desapareceu, graças ao sorriso e acolhimento e carinho de todos, inclusivé os autotenes, a vontade de ajudar a mudar alguma coisa começa a despontar e, parece-me que já não há razões para querer fugir sem completar a tarefa que me "puxou" para querer vir a Lichinga, que consiste em conhecer, perceber, divulgar, mas sobretudo mudar a minha perspetiva de e perante a vida e os seres humanos! Tenho saudades de Portugal, da minha filha, familia, "Sinhá", casa, amigos etc…. etc…, mas acredito cada vez mais que, quando sair daqui, sairei outra pessoa, mais rica, mais objetiva, menos ambiciosa, mais tolerante, mais humana, menos egoista e mais solidária, enfim, espero sair de Moçambique mais "rica" e uma melhor pessoa.

Neste momento e ainda relativamente distanciada da partida a grande lição que começo a extrair desta efémera experiência, é que para se ser Missionário (em permanência) tem de se ser um ser muito especial! Tem de ser alguém que seja capaz de  se despegar do supérfluo, do acessório, do desnecessário, capaz de pensar mais nos outros do que em si próprio, tem de ter grande amor ao próximo e a Deus, a capacidade de abnegar do conforto,  dos bens materiais, caracteristicas que só pessoas especiais possuem.

Infelizmente não sou assim! mas gostava de ter este Dom!

Obrigada por tudo Irmãs! Voçês são o modelo que eu gostaria de ser! Moçambique, Lichinga, 22/05/2013

Neli Cruz

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